Técnica reforçou tecidos do órgão, fortalecendo batimentos e formando novos suprimentos de sangue. Isso permitiu que uma paciente de 46 anos sobrevivesse por 3 meses, até receber um transplante

Uma equipe de pesquisadores da Alemanha e EUA conseguiu demonstrar que pedaços de músculo cultivados a partir de curativos de células-tronco podem ajudar a reparar um coração com insuficiência cardíaca. A técnica foi inicialmente testada em macacos e, depois, adaptada para atender as necessidades de uma mulher de 46 anos.
Vítima de um ataque cardíaco em 2016, a paciente passou por uma operação para implantar 10 adesivos de 400 milhões de células no coração. Com isso, seu quadro de saúde manteve-se estável por três meses, tempo suficiente para que ela conseguisse receber um órgão novo via transplante.
Fora do corpo, os cientistas examinaram seu antigo coração e descobriram que os curativos musculares permaneceram no lugar. Mais do que isso, eles chegaram a formar vasos sanguíneos. As conclusões do experimento aparecem em um artigo científico, publicado, na revista Nature.
A insuficiência cardíaca pode ser uma consequência desencadeada por problemas como ataques cardíacos, pressão alta e doença arterial coronária. Estima-se que ela afete mais de 64 milhões de pessoas no mundo todo, sendo que metade delas apresenta uma expectativa de vida de apenas um ano desde o diagnóstico.
O tratamento costuma ser complexo, já que os transplantes de órgãos, por exemplo, dependem da disponibilidade de corações compatíveis, que costumam demorar para chegar pela falta de doadores. Por sua vez, bombas cardíacas artificiais ainda são caras, e apresentam uma alta taxa de complicações.
“Agora temos, pela primeira vez, um transplante biológico desenvolvido em laboratório que tem o potencial de estabilizar e fortalecer o músculo cardíaco”, disse o coautor do estudo Ingo Kutschka, durante uma coletiva de imprensa. Os adesivos são feitos de células retiradas do sangue e “reprogramadas” para atuar como células-tronco, que podem se desenvolver em qualquer tipo de célula do corpo.
No caso desta pesquisa, as células foram estimuladas para se transformarem em células do músculo cardíaco e do tecido conjuntivo. Elas então foram incorporadas em um gel de colágeno e cultivadas em um molde de adesivo hexagonal, aplicado sobre o coração das cobaias.
Wolfram-Hubertus Zimmermann, outro pesquisador colaborador do projeto, explica que o músculo nos adesivos tinha características equivalentes as de um coração com quatro a oito anos de idade. Isso foi chave para o sucesso do tratamento, pois alternativas baseadas na injeção de células musculares diretamente no coração resultaram no crescimento de tumores e irregularidade nos batimentos.
Na prática, os adesivos permitiram que as células cardíacas fossem administradas com menos riscos e maior eficácia. Como destaca o jornal The Guardian, nos testes em macacos, não se encontrou evidências de batimentos cardíacos irregulares, formação de tumores ou doenças relacionadas aos adesivos.
Quando a equipe voltou a estudar os corações desses animais até seis meses após a implantação dos adesivos, notou que houve um espessamento da parede cardíaca. Já nos casos de cobaias com insuficiência cardíaca crônica, os especialistas identificaram sinais de melhora da função cardíaca, como uma maior capacidade da parede cardíaca de se contrair.
Para replicar os resultados na paciente humana, os especialistas criaram os adesivos a partir de células retiradas de um doador também humano e os suturou com cirurgia minimamente invasiva. Três meses depois, com a chegada de um coração para transplante, o órgão antigo pôde ser retirado do corpo da mulher e analisado em detalhes no laboratório. Comprovou-se, assim, que os adesivos não apenas sobreviveram, como também formaram um suprimento de sangue.
Embora o uso de células de doadores signifique que a supressão imunológica seja necessária, os pesquisadores dizem que seria muito caro e levaria muito tempo para criar adesivos a partir de células de um paciente com necessidade urgente. As células de doadores também ofereceriam a chance de adesivos "prontos para uso" e melhores testes de segurança.
A equipe diz que leva de três a seis meses para que os efeitos terapêuticos dos adesivos apareçam, o que significa que eles não seriam adequados para todos os pacientes. Em uma segunda fase de testes, 15 novos pacientes já receberam os adesivos.
“Menos de 1% dos pacientes necessitados conseguem receber um transplante de coração a tempo”, conclui Zimmermann. “Nossa proposta oferece outro tratamento para pessoas que estão atualmente sob cuidados paliativos”.
A terapia celular sendo usada com novas técnicas de tratamento.