Adultos cujos cérebros ainda apresentam forte produção de neurônios parecem ter melhor memória e função cognitiva do que aqueles em que essa capacidade diminui, segundo um estudo publicado na revista Nature.
Os autores examinaram amostras de cérebro de doadores falecidos, desde jovens adultos até “superidosos” – pessoas com mais de 80 anos com memória excepcional.
Eles descobriram que adultos jovens e idosos com cognição saudável geravam neurônios, um processo chamado neurogênese, em níveis elevados para a sua idade. A equipe estimou que os novos neurônios representavam apenas uma pequena fração – 0,01% – dos neurônios no hipocampo, uma região do cérebro essencial para a memória. Em contraste, em pessoas com declínio cognitivo, incluindo indivíduos com doença de Alzheimer, a neurogênese parece diminuir: os pesquisadores observaram menos neurônios em desenvolvimento, ou imaturos, nessas amostras de cérebro.
Surpreendentemente, um grupo de “superidosos” apresentou um número ainda maior de neurônios imaturos do que outros grupos, e significativamente maior do que apresentaram aqueles com Alzheimer. No entanto, o tamanho dos grupos era pequeno, portanto, nem todas as descobertas foram estatisticamente significativas. Maura Boldrini Dupont, neurocientista e psiquiatra da Universidade Columbia, em Nova York, afirma que o pequeno tamanho dos grupos – cada um com dez ou menos indivíduos – é um motivo para interpretar os resultados com cautela.
Compreender as ferramentas que o cérebro utiliza para gerar neurônios e manter a função cognitiva na velhice pode ajudar os pesquisadores a desenvolver medicamentos que induzam a neurogênese em pessoas com declínio cognitivo, afirma a coautora Orly Lazarov, neurocientista da Universidade de Illinois em Chicago.
As descobertas apoiam a ideia de que o cérebro humano continua a gerar neurônios mesmo na idade adulta. Mas essa ideia nem sempre foi aceita.
No início do século XX, o neurocientista Santiago Ramón y Cajal sugeriu que o cérebro humano não era capaz de formar neurônios após o nascimento. Posteriormente, os pesquisadores descobriram que a neurogênese ocorria na infância, mas ainda acreditavam que esse era o ponto final.
“Era isso que ensinavam quando eu cursava medicina”, diz Dupont.
Nas últimas décadas, porém, esse dogma foi desafiado por novas evidências que apoiam a neurogênese no hipocampo adulto, alimentando um debate contínuo na neurobiologia.
Embora os pesquisadores saibam que a neurogênese ocorre em alguns animais adultos, incluindo camundongos e primatas, eles não conseguiram chegar a um consenso sobre se ela ocorre no cérebro de adultos humanos. Isso se deve principalmente ao fato de existirem mais ferramentas para estudar a neurogênese em animais do que em humanos. Em camundongos, por exemplo, os pesquisadores podem injetar substâncias químicas que rastreiam o nascimento e o desenvolvimento de neurônios. Isso não pode ser feito em pessoas vivas, e a pesquisa em amostras de cérebro humano tem sido limitada, afirma Lazarov.
Uma ferramenta que os pesquisadores têm usado para estudar a neurogênese em humanos, no entanto, são os marcadores proteicos. Anticorpos podem ser usados para detectar certas proteínas expressas por células-tronco neurais – que podem se transformar em neurônios – e por neurônios imaturos em amostras de cérebro doadas. Mas Lazarov destaca o argumento dos críticos de que “essas proteínas não são específicas o suficiente e podem ser expressas em outros tipos de células, não apenas na neurogênese”.
Assim, os cientistas passaram a recorrer ao sequenciamento de RNA de célula única para encontrar marcadores genéticos mais específicos de células-tronco neurais e de neurônios imaturos no hipocampo humano.
Lazarov e seus colegas foram um passo além em seu estudo mais recente. Eles não apenas usaram o sequenciamento de RNA para identificar as assinaturas genéticas desses tipos de células, como também descobriram assinaturas epigenéticas. Marcadores epigenéticos são modificações do DNA que controlam a expressão gênica. A equipe usou um ensaio que identifica partes do DNA de uma célula que estão preparadas para a expressão, a fim de determinar essas assinaturas. Dupont afirma que esse ensaio é um ponto forte do estudo.
Lazarov diz que o próximo passo seria entender a função dos neurônios gerados no cérebro adulto. “O que precisamos é da validação funcional dessas células, para dizer o que elas estão fazendo no cérebro humano”, diz ela, acrescentando que isso exigiria novas técnicas de imagem sensíveis o suficiente para detectar essa atividade.
A existência da neurogênese hipocampal humana tem sido debatida há muito tempo e sua relevância na cognição permanece desconhecida. Estudos recentes estabeleceram a presença de progenitores proliferativos e neurônios imaturos, bem como uma redução destes últimos na doença de Alzheimer (DA). No entanto, sua origem e as redes moleculares que regulam a neurogênese e a função ainda são pouco compreendidas.
Neste estudo, analisou-se hipocampos humanos post-mortem obtidos de diferentes grupos: adultos jovens com memória intacta, adultos idosos sem comprometimento cognitivo, adultos idosos com capacidade de memória extraordinária (SuperAgers ou “superidosos”), adultos com patologia intermediária pré-clínica ou adultos com DA.
Utilizando sequenciamento multiômico de células individuais (sequenciamento de RNA de núcleo único e ensaio de núcleo único para cromatina acessível à transposase com sequenciamento), analisou-se os perfis de 355.997 núcleos isolados das amostras de hipocampo e identificou-se células-tronco neurais, neuroblastos e neurônios granulares imaturos.
A neurogênese desregulada foi amplamente associada a alterações na acessibilidade da cromatina. Análises de fatores de transcrição e assinaturas de genes-alvo que diferenciaram cada um dos grupos revelaram alterações precoces na acessibilidade da cromatina de células neurogênicas de indivíduos com DA pré-clínica, e tais alterações foram ainda mais evidentes em amostras de indivíduos com DA.
Identificou-se um perfil distinto de neurogênese em SuperAgers que pode refletir uma “assinatura de resiliência”.
Finalmente, alterações no perfil de astrócitos e neurônios CA1 governam a função cognitiva no hipocampo em envelhecimento.
Em conjunto, o estudo aponta para uma assinatura molecular multiômica do hipocampo que distingue a resiliência e a deterioração cognitiva com o envelhecimento.
A neurogênese pode ser estimulada através de aplicações de células-tronco mesenquimais jovens.