Pesquisa do coração: dos 574 pacientes do país, 49 estão sendo avaliados em Pernambuco. Entre os 32 brasileiros que tiveram infarto, 30% são pernambucanos
Fé e ciência. Palavras que sempre andam juntas quando o assunto é células-tronco. Se não fosse pela fé, o que mais levaria 574 pessoas de todo o país a se submeterem ao procedimento cirúrgico de uma pesquisa que não sabem se dará certo? Mais que isso. Sem a certeza de estarem recebendo células-tronco e não uma solução com soro fisiológico que de nada serviria. Não há como negar a crença dessas pessoas. Na ciência, nos médicos e no que acreditam ser a solução para pelo menos parte de seus problemas: as células-tronco. Eles participam do Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias, a maior pesquisa realizada no Brasil nessa área, que já dura quatro anos. Do total de pacientes, 49 estão incluídos nos dois centros de Pernambuco.
O empresário de 50 anos Fernando Januário da Silva bem que poderia se transformar num símbolo da esperança. Há cerca de dois anos e meio, sofreu um infarto de grande proporção. Mais da metade do músculo cardíaco ficou comprometido, o que afetou 70% do trabalho do órgão. O empresário foi incluído na pesquisa, onde a escolha dos pacientes que recebem as células-tronco é feita por sorteio e nem os médicos sabem quem obteve o quê. A dúvida acompanha Januário. Mas de uma coisa ele sabe. De lá para cá, seu músculo cardíaco já teve uma recuperação de 73%. "Hoje eu não sinto nada. Não canso, ando, trabalho muito, subo e desço escada", comemorou.
Preliminares - Mas nem tudo são boas notícias. Das quatro linhas de pesquisa realizadas dentro do estudo - infarto agudo do miocárdio, miocardiopatia dilatada, doença isquêmica crônica e Chagas - uma já tem resultados preliminares. E eles não são bons. Todos os pacientes de Chagas apresentaram uma pequena melhora, mas não houve diferença significativa entre quem recebeu e quem não recebeu células-tronco. Ainda falta o resultado de uma análise importante, a da fração de ejeção, índice que mede o percentual de sangue que chega e é bombeado do coração, mas os pesquisadores nãotêm muita esperança de que venha daí um dado animador. Duzentos e trinta e uma pessoas com a doença participaram do estudo. Oito de Pernambuco.
Segundo o coordenador nacional do estudo e coordenador de ensino e pesquisa do Instituto Nacional de Cardiologia, Antônio Carlos Carvalho, não será surpresa se os resultados do grupo de miocardiopatia dilatada seguirem a mesma linha. Nesse caso, assim como em Chagas, esperava-se que as células-tronco utilizadas fossem capazes de formar um novo músculo. "Acredito que para criar novos vasos, esse tipo de célula seja mais adequado do que para criar novo músculo", disse. Agora, a maior parte das fichas estão apostadas nas outras duas linhas de pesquisa. Nelas, a criação de novos vasos sanguíneos poderia beneficiar os pacientes.
Os resultados ruins, no entanto, não representam o fim da linha. São só o começo. Já se pensa, inclusive, em fazer um novo estudo nacional envolvendo pacientes de Chagas. Desta vez com uma técnica mais cara e com 100% de células-tronco. Hoje, segundo Carvalho, o material injetado nos pacientes tem, no máximo, 2% de células-tronco. "Estamos no início. É uma questão de encontrar o tipo certo de célula para o tipo certo de paciente, com a via correta de aplicação", profetizou o coordenador nacional, num ato de fé na ciência.
Ela voltou a andar, correr... - Há dois anos, Cristiane Maria dos Santos é outra pessoa. Bem diferente de dois anos atrás, quando mal conseguia andar dois metros, não tomava banho sozinha, se banhava sentada. E sentada dormia. Ia diariamente ao hospital com as mesmas queixas: um cansaço insuportável e inchaço no lado esquerdo do peito. Na cidade onde mora, Carpina, Mata Norte do estado, foi diagnosticada com gastrite. Pediu para ser encaminhada para o Recife, onde descobriu que tinha o coração crescido. Foi diagnosticada com miocardiopatia dilatada. Há sete meses foi inserida no grupo de estudo de células-tronco do Hospital Agamenon Magalhães. Cristiane não sabe se recebeu células-tronco. Mas sua vida mudou. "Hoje ando, subo ladeira, pedalo bicicleta, corro, trabalho na feira, bordo e faço computação. Nasci de novo", disse a jovem de 28 anos.
Dores no peito foram esquecidas - A intensidade da dor que sentiu no peito, Eraldo Mariano de Lyra, 56 anos, não consegue esquecer. Nem descrever. Ele sofreu um infarto. Ou melhor, dois, separados apenas por alguns dias. Como qualquer paciente infartado, foi submetido a um cateterismo (exame que identifica o problema obstrutivo da coronária e serve de terapia) e a uma angioplastia (procedimento usado para desobstruir a artéria). Quando os médicos explicaram como ocorreria a pesquisa com células-tronco, aceitou participar. "Tive medo da cirurgia, mas acreditei nas células-tronco", disse. Não se arrepende. "A dor no peito sumiu. Não sei se por causa dos remédios ou das células. Mas não há nada no meu dia a dia que não possa fazer", contou. O Hospital Agamenon Magalhães tem 32 pacientes na linha de pesquisa sobre infarto. É o maior número do país (30% do total).
Um dia a dia livre do cansaço - Com miocardiopatia dilatada, Cícero José da Silva, 59, não sabe se recebeu ou não células-tronco. Mas tem esperança. Há cinco anos, os médicos lhe disseram que seu coração estava crescido. Passaram medicamentos. Mas nenhum fazia ele se sentir melhor. Cícero parou de tomar os remédios e tentou outras soluções. Viu uma receita de chá na televisão, quis ver se dava certo... e gostou. Até que soube das células-tronco. "Se você está morrendo afogado, o que tiver para pegar, você pega", disse. E nesse espírito, resolveu experimentar de novo. Aposentado um ano após o diagnóstico da doença, ele diz que está melhor. "O cansaço melhorou e minha autoestima aumentou. No dia a dia, muda muita coisa. Antes, caminhava e me sentia mal. Hoje me sinto bem melhor", disse o homem que sonha melhorar 70% ou até 100%, com fé nas células-tronco.
Além de Pernanbuco, outras 10 cidades fazem parte desta pesquisa que é coordenada pelo INCOR, de São Paulo, e patrocinada pelo Governo Federal.
Fonte: Diários Associados