Pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e Universidade Paris Diderot, de Sorbonne Paris Cité, França, comprova benefícios do transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas (realizado com células do sangue do próprio doente) no tratamento da esclerose sistêmica.

A esclerose sistêmica é uma doença autoimune reumática crônica do tecido conjuntivo (um dos tipos de tecidos encontrados no corpo humano). Explica o pesquisador Lucas Coelho Marlière Arruda, integrante da equipe da FMRP, que a esclerose sistêmica é “caracterizada por lesões microvasculares associadas a diferentes graus de fibrose da pele e dos órgãos internos”.
As causas da enfermidade permanecem ainda desconhecidas, por isso, os tratamentos disponíveis possuem eficácia limitada no controle da progressão da doença e os pacientes sofrem com problemas de falta de ar, dores pelo corpo, manchas e dificuldade de locomoção. Muitos doentes são obrigados a deixar a vida profissional e até o convívio familiar.
As opções de tratamento até o momento utilizadas “não funcionam muito bem”, adianta o pesquisador. Por isso, garante, “o transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas tem surgido como uma alternativa terapêutica promissora, impedindo a progressão da doença e devolvendo qualidade de vida”.
Na terapia, os pacientes se submetem a altas doses de quimioterapia. O objetivo é destruir por completo o sistema imunológico doente e, em seguida, administrar ”células-tronco do próprio paciente para ‘resetar’ o sistema imune e impedir a progressão da doença. Funciona como o ‘reset’ de um computador defeituoso, para que ele volte a funcionar bem novamente”, conta Arruda.
31 pacientes acompanhados - Os pesquisadores franceses e do Centro de Terapia Celular (CTC) da FMRP – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP – acompanharam 31 pacientes pós-transplantados durante três anos para descrição completa das mudanças ocorridas. Queriam avaliar como a reconstituição do novo sistema imunológico, após o “reset”, está relacionada com a melhora clínica dos pacientes.
Os resultados apontaram que o timo e a medula óssea, órgãos responsáveis pela manutenção das células do sangue e do sistema imune, produzem muitas células reguladoras, após a terapia com as células-tronco. Também notaram a melhora da fibrose da pele e dos órgãos internos, levando ao controle da doença por gerar um sistema imune mais saudável.
A pesquisa ajuda a esclarecer os mecanismos imunológicos de ação e os benefícios do transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas no tratamento da esclerose sistêmica, o que é necessário para melhoria do protocolo clínico e a consolidação desta terapia como tratamento da doença.
O estudo, inédito, “Linfócitos B e T reguladores recém-gerados após transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas associam-se a melhora da fibrose cutânea em pacientes com esclerose sistêmica”, conquistou o primeiro lugar no concurso de temas livres do XXIII Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado este ano em Brasília, do dia 24 a 27 de agosto. Ela aponta nova alternativa para o tratamento da esclerose sistêmica
Este protocolo também poderá ser aplicado para maioria das doenças autoimunes.