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Novas técnicas criam ossos e cartilagens à la carte

Ossos e cartilagens à la carte. É o que prometem as novas técnicas desenvolvidas pela empresa Bonus Biogroup, baseada em Haifa (norte de Israel), e por um grupo de pesquisadores do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP (IOT).

O procedimento desenvolvido pela Bonus, ainda em testes, envolve o cultivo de tecido ósseo vivo sob medida a partir de células-tronco retiradas da gordura do próprio paciente com lipoaspiração —ou seja, nada de enxertos artificiais. 

A tecnologia poderá permitir que qualquer pessoa encomende o osso de que necessita em caso de trauma, infecção ou câncer, por exemplo.

Hoje, a solução envolve cirurgia para colher parte de um osso de outra parte do corpo e o implante na região carente ou utilizar um substituto artificial. 

A vantagem dos ossos vivos, cultivados fora do corpo, é que eles já vêm com vasos sanguíneos e com potencial para criação de medula óssea. Praticamente não há risco de rejeição.

Os primeiros experimentos com seres humanos começaram há quatro anos com 32 pacientes e foram concluídos com sucesso. A segunda batelada de testes foi em setembro de 2016 com pacientes que sofriam de falta de tecido ósseo na mandíbula. Em 15 de agosto do ano seguinte, ocorreu o primeiro teste com ossos de membros maiores. Um homem que perdera parte da tíbia recebeu o osso cultivado a partir de suas próprias células, e deu certo.

A meta de Nimrod Rozen, diretor do departamento de ortopedia do Hospital Haemek, é tratar 50 pacientes até o final de 2018. 

A empresa estima que, quando aprovado, o procedimento custará menos do que o atual tratamento de regeneração óssea, que pode chegar até a US$ 90.000.

A pesquisa com engenharia de tecidos começou na década de 80 em todo o mundo, mas no Brasil ainda está atrasado, dizem pesquisadores.

“Não temos o incentivo que existe em países como Israel. Esse método é uma cura para a perda óssea, e não um paliativo”, diz a cirurgiã-dentista Monica Duailibi, professora da Unifesp.

Ela e o marido, o também pesquisador Silvio Duailibi, lideram uma pesquisa que começou há 15 anos, quando moravam nos EUA, para construir coroas dentárias com técnicas de engenharia tecidual. O objetivo é desenvolver métodos para a reposição de dentes humanos por meio do crescimento na mandíbula de um novo dente proveniente das células do próprio indivíduo. 

Com relação aos experimentos da área de engenharia de tecidos, os pesquisadores alertam que é importante ter cautela. “A validação desse tipo de pesquisa é importantíssimo. Não se pode correr com os testes clínicos”, afirma Silvio Duailibi.

Cartilagem

No caso da pesquisa desenvolvida no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da USP, a estrutura a ser reconstruída, uma cartilagem, é menos vistosa que uma tíbia, mas, quando lesada, pode causar dores incríveis. O joelho de Paula Helena Lima, 38, que o diga. 

Paula tinha o problema ortopédico conhecido como instabilidade patelar. O osso que fica na frente do joelho, a patela, saiu do lugar, desestabilizando a articulação. A primeira luxação de que Paula se recorda foi aos 12 anos, quando descia da bicicleta.

Os traumas ficaram cada vez mais frequentes. “Chegou um momento em que eu não tinha mais qualidade de vida”, conta Paula, que trabalha com gestão de inovação em saúde. O joelho ficava inchado e dolorido. 

O quadro foi piorando por causa de uma lesão de cartilagem. Sem essa proteção natural, há atrito de osso com osso e uma dor sem fim.

A solução, proposta por Marco Demange, professor do IOT e por sua equipe, eram duas: corrigir a instabilidade patelar original e reparar com terapia celular a cartilagem machucada, a causa do sofrimento atual.

Foram dois procedimentos cirúrgicos, muitas sessões de fisioterapia e horas de musculação. O tamanho da cicatriz no joelho direito —25 pontos no total— não é maior que o alívio. “Por enquanto não posso correr nem fazer agachamentos, mas estou sem dor, restabelecendo uma vida normal”, diz Paula.

O procedimento que restaurou a cartilagem é novo. O limite das técnicas atuais para reparo de cartilagem é o tamanho da lesão, explica Demange. Com o cultivo de células em uma membrana de colágeno, há grandes chances de tratar adequadamente lesões maiores que 3 cm². Até agora já foram sete pacientes operados. 

A membrana de colágeno é usada sozinha para tratar lesões de cartilagem, mas os resultados com o cultivo de condrócitos (células da cartilagem) parecem ser superiores, diz o ortopedista.

Há anos cientistas tentavam fazer algo do tipo no país, mas as barreiras eram tecnológicas e regulatórias. 

Recentemente a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma nova resolução que define quais são as boas práticas para o cultivo de células humanas e como elas podem ser utilizadas terapeuticamente. Na prática, a norma pode dar segurança jurídica aos pesquisadores. 

Moisés Cohen, ortopedista e professor titular da Unifesp que também faz pesquisa com cultura de células para tratar lesões de cartilagem, afirma que o grande problema tem sido a demora para a regulação do cultivo celular. 

“Gostaria que a Anvisa e o Ministério da Saúde fossem mais ágeis, para não ficarmos sempre a reboque do que fazem no exterior”. Nos EUA, por exemplo, a terapia testada pelo grupo da USP já é regulamentada. 

Em Israel, Rozen projeta o futuro da engenharia de tecidos na área ortopédica: “Em 15 anos, nosso objetivo é cultivar articulações já com ossos e cartilagens”.

Comentário CCB:

As células-tronco retiradas da gordura tem uma grande plasticidade para transformar-se em tecido ósseo e cartilagem.

Fonte: AMBr // Folha de São Paulo

Publicado em: 7 de junho de 2018 às 16:06.

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